Sávio Cavalcante é um dos signatários da Carta Aberta em repúdio às declarações do reitor na Folha de Londrina do dia 3 de junho deste ano. Sávio é professor de Sociologia e dá aula para os cursos de Ciências Sociais, Moda, Direito e Serviço Social. Aqui estão trechos da entrevista realizada no dia 21 deste mês.
Sobre a Carta Aberta: “A Carta Aberta não foi uma manifestação individual, demonstra uma preocupação em relação à forma pela qual a discussão do plano está sendo dada. (...) Mesmo estes que assinaram a carta não têm um consenso sobre o plano de segurança, na verdade, existe uma avaliação consensual sobre as declarações do reitor, a forma que ele se colocou no debate. Esta tentativa de desqualificação e criminalização daqueles que estavam se opondo ao plano é muito problemática, pois assim se perde todo o debate político que deveria ser realizado. Estas declarações do reitor, as quais associam o movimento estudantil ao tráfico de drogas, a partidos de ‘ultra-esquerda’, demonstram a insuficiência dos argumentos e a debilidade do trato político das pessoas que estão tentando concretizar este plano. Esta desqualificação e criminalização dos interlocutores é nossa maior critica. Ela é inconcebível em qualquer ambiente acadêmico que se pretenda minimamente democrático”.
“O que na verdade ele (o reitor) tentou fazer foi desqualificar os opositores, transformá-los em simples baderneiros, quando a gente sabe que, na verdade, estes estudantes têm uma consciência muito grande sobre como devem agir, têm propostas muito interessantes para se pensar a universidade e sua inserção dentro dela. E, mais, têm também uma força de mobilização, como comprovado na manifestação da Audiência Pública, o que é fonte de verdadeira legitimidade”.
Opinião sobre o plano: “Se você pega o documento, ele demonstra uma visão de mundo, ele fala da era da pós-modernidade, da sociedade do risco, que, no meu entender, são termos teoricamente equivocados para se caracterizar a sociedade contemporânea. E a maior insuficiência desta visão é que ela desconsidera, ou leva a uma dimensão quase insignificante, as contradições do capitalismo, que servem para criar condições objetivas nas quais se desenvolvem atos de violência. Então, a violência é pensada por si só, como se ela fosse fruto de indivíduos mal intencionados por natureza ou por modelos culturais específicos, como se fosse somente uma questão moral, quando na verdade é muito mais complexo do que isso. É evidente que havia violência antes do capitalismo e, provavelmente, sempre haverá. Seria ingenuidade pensar algo diferente disto. Da mesma maneira, não quero dizer que a violência é restrita a uma ou outra classe, muito menos que ela se vincula diretamente à baixa renda, pelo contrário, formas de violência espantosas são comuns às classes proprietárias.
Mas não se pode ignorar que esse modo de produção contém um ato supremo de violência no seu âmago: aquele que torna uma pessoa simples fator de produção, uma mercadoria como qualquer outra, que pode se tornar supérflua como qualquer outra. Ou seja, este “risco” é ignorado, o da descartabilidade humana, que é a tônica vigente da acumulação de capital desde seu início. O que acontecerá com estes “supérfluos” para o mundo? O conceito de pós-modernidade só auxilia na mistificação destes problemas estruturais”.
Ainda o Plano: “Sou totalmente contrário a estes pontos [sobre a construção de um muro, entrada das polícias militar e civil no campus e a criação de um órgão de segurança que teria uma rotina sigilosa com a reitoria], principalmente porque eles invertem o caráter público e autônomo da universidade. A primeira questão é a ingenuidade de se acreditar que, ao se fechar a universidade, seja possível resolver estes problemas, quando, na verdade, o problema parece ser que ela é fechada por outros meios, isto é, aqueles meios que impedem uma identificação maior dos estudantes e da população com a universidade. Acredito que se houvesse uma forma mais eficiente de criar essa identificação este tipo de atitude repressiva seria cada vez menos necessária.”
Uma possibilidade: “Em primeiro lugar, a ligação com movimentos sociais que expressam, através de uma postura crítica e contestadora, os conflitos da sociedade em que vivemos, sejam eles políticos, culturais, econômicos. Isto significa, entre vários outros pontos, abrir a universidade para cursos-livres de artes, esportes, economia, política, aliados aos projetos de extensão que permitam com que as pessoas freqüentem a universidade, para que se crie uma identificação com este espaço e com o que ele representa”.
O cercamento: “A questão do muro pode ser vista até do ponto de vista simbólico: mais uma vez se privatiza e restringe o espaço público e em nenhum momento se pensa uma forma de maior inserção da sociedade no meio acadêmico. (...) Simplesmente fechar a universidade não é solução para nada, como já demonstra experiências em outras universidades do Brasil.”
A polícia: “A polícia no campus é problemática na medida em que fatos passados demonstram que sua atuação vai muito mais contra a organização dos movimentos estudantil e grevista, serve muito mais como controle daqueles que se opõem aos desmandos dos que estão no poder, do que para assegurar dos próprios. Outro ponto que eu acho extremamente criticável é a criação de um órgão de segurança interna que teria uma rotina administrativa sigilosa com a reitoria. Isso é extremamente perigoso na medida em que elimina todo o processo democrático que deve pautar as questões internas do campus. Que finalidades serão dadas a este órgão? Quem realmente o controlará? Com que objetivos? Acredito que este é mais um indício de privatização do espaço público, que aumenta a repressão e inibe um debate mais aberto”.
O preconceito: “Também chamo a atenção para uma questão extremamente complicada, que é o incentivo à vigilância permanente, uma vigilância que deveria ser exercida por todos na caça de ‘suspeitos’. Eu ouvi de um dos representantes da reitoria, que um dos fatores que tornam aqueles que estão na universidade em vítimas, é que eles se ‘comportam como vítimas’. Para este representante, se você vir algum ‘suspeito’, alguém que “não faça parte” da comunidade acadêmica, você deveria denunciar para a segurança. E aí entra a identificação física de um suspeito, que, evidentemente, remete a construções culturais. Só imagine isso num país como o nosso tão afeito a diversas formas de preconceito, como, por exemplo, o racismo. Não podemos admitir que alguém, dentro da própria universidade, afirme que é possível, pelos rostos e jeitos das pessoas, identificar uma condição ‘suspeita’. São práticas de caráter fascista que afloram nestes discursos.”
A assistência Estudantil: “Eu concordo, em parte, com os estudantes quando eles falam que a questão da segurança não parece ser prioritária dentro do campus, na medida em que diversas outras formas de violência, menos explícitas, se apresentam para os estudantes, como a falta de assistência estudantil, de uma estrutura acadêmica verdadeira, que possibilite condições melhores para aqueles que possam vir para cá estudar. Os perigos não são somente contra carros e patrimônios – afinal, violência é contra seres vivos. O que é preocupante são aquelas formas de violência que ficam mais escondidas, que são até mais perigosas.”
“Uma questão deve ficar clara: a noção de ‘comunidade’ universitária é falsa: como parte de uma totalidade contraditória, a universidade expressa e comporta interesses distintos de classe. Não há interesses e valores totalmente homogêneos. Em outras palavras, a violência mais sentida para alguns é contra a propriedade, para outros é a ausência de condições que os possibilitem estudar”.
“A maior preocupação deve ser sempre em relação à vida das pessoas, e não um carro, um patrimônio, o que parece ser o prioritário nos anseios dos ‘cidadãos de bem’ que, de forma isolada, servem de base de legitimação para este plano”.
A segurança: “Mas eu não acho que a gente deve se furtar de pensar a violência no campus, nas suas várias determinações. O que adianta impedir a entrada da polícia e aceitar polícias privadas, grupos de segurança armada terceirizados? Não tenho, lógico, nenhuma resposta pronta ou solução mágica, mas se algum lugar deve pensar isto de forma qualitativa, a universidade deve ser um deles. A princípio, parece ser o mais interessante algumas alternativas até que aparentemente simples, como a melhora significativa da iluminação, a contratação de mais vigias dentro do campus - mais bem treinados, mais bem pagos, etc. E de forma menos imediata, eu acho que é preciso pensar uma forma de incentivar as pessoas a ficarem dentro do campus, porque existe uma mentalidade criada por esta falta de assistência estudantil que torna este espaço um grande colégio. Tem momentos que o campus está completamente vazio, e isto contribui para certos atos de furtos, roubos, etc.”
“Agora, o que adianta resolver esses problemas aqui dentro, se quando os estudantes saem, eles estão sujeitos, da mesma forma, à violência? A segurança pública é dever do Estado e deve ser pensada nesta dimensão. A universidade não é uma ilha, e não deve ser uma ilha”.
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